Toda planta que trabalha com gás inflamável, vapor de solvente ou poeira combustível tem regiões onde uma fonte de ignição não pode existir. Essas regiões são as áreas classificadas, e o que entra nelas não é escolhido por catálogo: é escolhido por marcação. Este texto explica o que cada parte dessa marcação quer dizer e como usá-la para decidir se um equipamento pode ou não ser instalado.
O que é uma área classificada
Área classificada é qualquer região onde há probabilidade de se formar uma atmosfera explosiva — a mistura de ar com gás, vapor, névoa ou poeira combustível em concentração capaz de propagar chama. O conceito não depende do tamanho da instalação: existe área classificada em refinaria, em silo de grãos, em moinho de ração, em cabine de pintura, em estação de tratamento de efluentes e em qualquer lugar onde poeira orgânica fica suspensa no ar.
A classificação é feita por zonas, e a zona expressa uma coisa só: com que frequência a atmosfera explosiva está presente.
- Zona 0 (gás) e Zona 20 (poeira) — a atmosfera explosiva está presente de forma contínua ou por longos períodos.
- Zona 1 e Zona 21 — é provável que ocorra durante a operação normal.
- Zona 2 e Zona 22 — não é provável em operação normal e, se ocorrer, dura pouco tempo.
Quem define a zona é o estudo de classificação da planta, não o fornecedor do equipamento. Essa é a primeira informação que precisa existir antes de qualquer compra — e é justamente a que costuma faltar no pedido.
Como ler a marcação, campo por campo
A marcação parece uma sopa de letras, mas cada campo responde a uma pergunta específica. Vamos usar uma marcação real, a de um contador pneumático certificado:
Ex II 2G Ex h IIB T4 Gb
II — grupo de equipamento
Diz onde o equipamento se destina a operar. Grupo I é mineração subterrânea, onde o risco é grisu. Grupo II é indústria de superfície. Grupo III aparece nas marcações de poeira.
2G — categoria e tipo de atmosfera
A categoria diz para qual zona o equipamento serve, e a letra diz contra o quê. Categoria 1 serve às zonas 0 e 20; categoria 2, às zonas 1 e 21; categoria 3, às zonas 2 e 22. A letra G é gás e D é poeira (do inglês dust). Um equipamento de categoria mais rigorosa pode ser usado em zona menos rigorosa — o contrário, nunca.
Ex h — tipo de proteção
Aqui está o campo que mais confunde. As letras clássicas descrevem como o equipamento evita a ignição: d é invólucro à prova de explosão, e é segurança aumentada, i é segurança intrínseca, p é pressurização. A letra h é diferente das outras: identifica proteção de equipamento não elétrico, conforme as normas ABNT NBR ISO 80079-36 e 80079-37.
Vale insistir nesse ponto porque ele é contraintuitivo: equipamento mecânico também precisa de certificação para área classificada. Um redutor, um acoplamento, uma bomba ou um contador puramente pneumático não têm circuito elétrico, mas podem gerar ignição por atrito, por impacto ou por aquecimento de superfície. Muita compra é feita supondo que “não tem eletricidade, então não tem risco”, e essa suposição não se sustenta tecnicamente nem em auditoria.
IIB — subgrupo
Dentro do Grupo II, os gases são separados pela facilidade de ignição: IIA (referência propano), IIB (etileno) e IIC (hidrogênio e acetileno, o mais severo). Para poeira, os subgrupos são IIIA (fibras e partículas em suspensão), IIIB (poeira não condutiva) e IIIC (poeira condutiva). Um equipamento IIC atende também IIB e IIA; um IIB não atende IIC.
T4 — classe de temperatura
Limita a temperatura máxima de superfície do equipamento, que precisa ficar abaixo da temperatura de ignição do gás presente. A escala vai de T1 (450 °C) a T6 (85 °C), passando por T2 (300 °C), T3 (200 °C), T4 (135 °C) e T5 (100 °C). Quanto maior o número, mais fria a superfície e mais abrangente o uso.
Em marcações de poeira, a temperatura não vem em classe: vem em valor absoluto, como T130 °C. Faz sentido, porque poeira depositada se auto-aquece e o critério de segurança é outro.
Gb — nível de proteção (EPL)
O Equipment Protection Level expressa o nível de proteção em uma escala própria: Ga, Gb e Gc para gás, Da, Db e Dc para poeira, Ma e Mb para mineração. Na prática, Ga corresponde à zona 0, Gb à zona 1 e Gc à zona 2 — a informação é redundante com a categoria, e serve de confirmação cruzada.
Em mineração, a distinção entre M1 e M2 é operacional e importante: um equipamento M1 pode permanecer energizado mesmo com atmosfera explosiva presente; um equipamento M2 precisa ser desenergizado quando ela aparece.
Traduzindo três marcações reais
Com os campos entendidos, a leitura fica direta. As três marcações abaixo são as de um mesmo equipamento — um contador pneumático certificado para as três situações:
- Ex II 2G Ex h IIB T4 Gb — indústria de superfície, zona 1 de gás, equipamento não elétrico, gases até o subgrupo IIB, superfície abaixo de 135 °C.
- Ex II 2D Ex h IIIB T130 °C Db — zona 21 de poeira, poeira não condutiva, superfície limitada a 130 °C.
- Ex I M2 Ex h I Mb — mineração subterrânea, deve ser desenergizado na presença de atmosfera explosiva.
ATEX, Inmetro e o que vale no Brasil
ATEX é o esquema europeu; no Brasil o esquema de referência é o do Inmetro. A diferença importa, mas não da forma como normalmente se imagina, e a resposta depende da natureza do equipamento.
Para equipamentos elétricos destinados a atmosferas explosivas, existe certificação compulsória no Brasil, com base na série de normas ABNT NBR IEC 60079. Nesse caso, certificado europeu não substitui a certificação nacional.
Para equipamentos mecânicos, não elétricos, o cenário é outro: até o momento o Inmetro não publicou regulamento de certificação compulsória específico para essa categoria. As normas de referência são a ABNT NBR ISO 80079-36 e a 80079-37, e a NR-37 — aplicável a plataformas de petróleo — exige que o equipamento mecânico instalado em área classificada seja avaliado segundo elas, admitindo autodeclaração, avaliação por segunda parte ou certificação por terceira parte.
Na prática isso significa duas coisas. Primeiro, que um certificado ATEX em equipamento mecânico é uma credencial legítima e frequentemente a melhor disponível. Segundo, que a exigência final é a da especificação do seu cliente ou da sua própria engenharia — muitas empresas adotam critérios mais rígidos que o mínimo legal. Confirme o que o seu projeto pede antes de fechar a compra, não depois.
O que informar ao fornecedor
Uma cotação para área classificada só pode ser respondida com três dados. Sem eles, qualquer indicação é chute:
- Zona e tipo de atmosfera — 0, 1, 2 para gás; 20, 21, 22 para poeira; ou mineração.
- Grupo ou substância presente — IIA, IIB, IIC, ou o nome do gás/poeira, do qual o subgrupo é deduzido.
- Temperatura ambiente do ponto de instalação — a faixa de temperatura ambiente é parte da certificação, não um detalhe de conforto.
Um quarto dado ajuda muito: o que existe instalado hoje. A foto da etiqueta do equipamento atual já traz a marcação completa e resolve a especificação em minutos.
Perguntas frequentes
Equipamento sem energia elétrica precisa de certificação Ex?
Sim, se for instalado em área classificada. Equipamento mecânico pode gerar ignição por atrito, impacto ou temperatura de superfície. É exatamente o que o tipo de proteção “h”, definido nas normas ISO 80079-36 e 80079-37, endereça.
Um equipamento IIB pode ser usado em atmosfera IIC?
Não. A escala é crescente em severidade: IIC atende IIB e IIA, mas IIB não atende IIC. O mesmo vale para as categorias — a de número menor é a mais rigorosa e cobre as demais.
O que significa T4 na marcação?
Que a temperatura máxima de superfície do equipamento não ultrapassa 135 °C. A classe precisa ser compatível com a temperatura de ignição do gás presente na área.
Certificado ATEX vale no Brasil?
Para equipamento elétrico, não substitui a certificação compulsória do Inmetro. Para equipamento mecânico não elétrico, não existe até o momento regulamento compulsório do Inmetro, e o certificado ATEX é uma credencial reconhecida — mas a exigência final é a da especificação do projeto.
Onde a Prodihl entra
Trabalhamos com componentes para instalação em área classificada e ajudamos a fechar a especificação a partir da zona, do grupo e da temperatura ambiente. Um exemplo é o contador pneumático ATEX Hengstler 497, certificado para as três marcações citadas neste artigo — parte da linha de contadores pneumáticos que distribuímos, cuja principal vantagem em área classificada é dispensar alimentação elétrica no ponto.
Vale lembrar que esses equipamentos exigem ar comprimido dentro de uma faixa de qualidade definida em norma — assunto do artigo sobre qualidade do ar comprimido e a ISO 8573.
Se você tem a zona definida e precisa da peça, fale com a gente. Se ainda não tem, mande a foto da etiqueta do que está instalado — a leitura da marcação é a nossa parte.







